Sensibilização digital

“Isto anda tudo muito sensível”, ouvia-a eu, certo dia. “Já não há respeito”, “antigamente é que era, as pessoas conviviam, divertiam-se e não havia cá telemóveis”. Quem nunca ouviu uma versão aproximada destes comentários, sobretudo da boca (ou do perfil de facebook) dos mais velhos?

Um misto entre pseudo-moralismo e fanfarronice, diria. Todos nós temos o PODER de opinar nos dias de hoje. É-nos permitida uma tamanha liberdade de expressão. Temos o luxo de escolher qual a via de comunicação que mais se enquadra no nosso perfil. Refiro-me, claro está, às redes sociais. Ora vejamos alguns exemplos:

Facebook

Geração com mais de 40 anos que contactou pela primeira vez com uma rede social. A minha avó não tem, felizmente.

Instagram

Geração millennial que privilegia a imagem e procura encontrar “o seu target”, isto é, fazer de tudo para ter uma DM (direct message) de alguém, mesmo que para isso tenha de atirar-se para um poço. Também existem marcas e influencers.

Twitter

Um misto de pseudo-intelectuais e putos que desabafam quando comem a sua taça de Chocapic ou são barrados à porta da discoteca. É “permitido” conteúdo pornográfico, e não estou a falar da forte comunidade jornalística.

Linkedin

Rede social dos profissionais que querem influenciar outros profissionais. Alguns também encontram emprego.

Snapchat

Putos que querem fazer mer** sem que os pais vejam e sem que fique registado.

Pinterest

Para reais amantes de fotografia. E não só…

TikTok

Sim, não é um programa do Canal Panda. É a rede social com mais crescimento nos últimos 2/3 anos. Gente (muito) jovem que gosta de “adornar” os seus dotes de cantor. Ou de palhaço, não sei bem.

Quora

Uma rede social de perguntas, e respostas, naturalmente. Muito interessante e educativo. Spoiler alert: Poderão haver alguns pervertidos.

Logicamente estou a generalizar. Haverá um par de seniores com Instagram e CEO´s de grandes empresas sem Linkedin, mas é esta a primeira imagem, sem filtros, que me vem à cabeça quando penso numa breve descrição para elas.

Recordo que a minha análise recai nas pessoas que as frequentam, e não nas suas reais potencialidades, como de negócio. A mensagem é simples: Podemos ser quem queremos, o que queremos, onde queremos e como queremos.

Isto tem tanto de belo como de perigoso. À medida que o mundo se vem digitalizando, o Facebook e o Instagram já não chegam, pois as gerações mais recentes evidenciam necessidades diferentes, cada vez mais segmentadas, cada vez mais de acordo com aquilo que são as pessoas de hoje em dia.

As pessoas já não são um Facebook, que representa uma rede mainstream que permite essencialmente “estar vivo online”, onde teoricamente podemos fazer tudo mas não somos especialistas em nada – as pessoas de hoje são o Pinterest, o Snapchat, o TikTok, que contêm funcionalidades específicas que se identificam com as preferências e valores das gerações mais jovens, aquelas que nunca experienciaram o offline.

Não é isto que me preocupa. Isto, é o sinal dos tempos, das novas realidades, dos novos sonhos. Quem é que, há 10 anos atrás, teria como objetivo criar uma app? Há 10 anos, é aqui ao lado! O que são 10 anos na história da humanidade?

Como se mudam os sonhos em tão pouco tempo. Como se mudam os percursos de vida neste ápice onde cabe a digitalização, a robótica, a inteligência artificial. Tudo é IT, tudo é tudo é Big Data, tudo é smart whatever it is.

E porque aqui falamos de pessoas, alguém duvida que somos tratados cada vez mais como um número e menos como ser humano? Por outro lado, somos cada vez mais individualistas mas queremos ao mesmo tempo pertencer a uma falsa comunidade.

Temos ferramentas que nos aproximam das pessoas, mas que nos fazem mais dependentes de quem está longe. Ignoramos os que estão à frente dos nossos olhos. O nosso colega de trabalho, que entrou recentemente na empresa, ou a senhora idosa que precisa de ajuda para atravessar a passadeira.

Num piscar de olhos, deixámos de nos aperceber do real poder das acções. Saber diferenciar a banalidade do que é realmente importante. Impera uma espécie de moralismo vigente, do politicamente correcto.

Passámos a ser especialistas a tentar encontrar o ponto fraco do outro e não a valorizar atitudes. Tudo é deturpado, nada é claro, tudo é discutível. Calma, um sumo de laranja continua a ser um sumo de laranja.

A digitalização tirou-nos muita coisa, que não essencial, mas verdadeira. Perdemos a capacidade de nos desenrascar, de ir à procura, à aventura, com medo mas com convicção que “só dava assim”.

O pau de selfie tirou-nos a conversa com a miúda que nos tira a foto, o GPS tirou-nos o privilégio de pedir indicações – as saudades que eu tenho de ouvir um “é já ali, não tem nada que enganar”. Já não socializamos tanto porque em vez de perguntar ao pai, ao colega, ao professor, ao médico, podemos fazer uma pesquisa no Google.

A digitalização também é (sentir) isto.

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